Exposing the Fraudulent Theater Course by Goy Fortea by Natalia ValeExposing the Fraudulent Theater Course by Goy Fortea by Natalia Vale

Exposing the Fraudulent Theater Course by Goy Fortea

Natalia  Vale

Natalia Vale

Por Natalia do Vale
Esta história começa numa tarde fria do outono de 2004, em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo. Um lambe lambe colado no poste de uma das avenidas mais movimentadas da cidade anunciava o início de um curso de teatro gratuito na Escola Capistrano de Abreu. O anúncio dizia: aulas aos sábados, sem custo, ministradas por renomado diretor teatral.
Oportunidades assim eram pouco comuns em Guarulhos. A cidade, a segunda maior do estado, vive o início de um período de modernização com a inauguração de novos centros culturais e espaços de lazer. Não havia, até aquele momento, projetos já consolidados na área artística, que prestigiassem os moradores locais.
As letras garrafais do cartaz saltaram como num filme 3D diante dos olhos de Betina. Garota de classe média baixa, a mais velha de três irmãos, que morava na cidade e sonhava em ser artista, assim como seu pai, seu avô, seus tios e primos.
Empolgada com a novidade e certa de que poderia estar diante da virada de que precisava dar em sua vida, um jovem de 22 anos declarado cedo, na data anunciada pelo cartaz, caminhou cerca de dois quilômetros até a escola e adentrou o pátio toda cheia de si. Queria saber se era verdadeira a informação de que teria ali um curso gratuito de teatro. Ouviu de fundo a voz de um homem, com um sotaque europeu, talvez espanhol, quase caricato. Sem entender que era a ela que ele se dirigia, Betina repetiu a pergunta: “É aqui que estão dando aulas de teatro gratuitas¿”.
O homem magro, alto, que caminhava solitário pelo espaço, vestia camiseta escura e calça de sarja, se movia mais e disse: “Sim, é aqui mesmo e eu sou o Goy Fortea, professor e diretor. Muito prazer”. Os dois precisaram as mãos num gesto de parceria e sentaram-se no palco do colégio até que novos assuntos específicos chegassem.
Em poucos minutos, um grupo de cerca de 10 pessoas se formou e deu início à primeira aula do módulo. Foram apenas informações gerais sobre o curso e a apresentação rápida do currículo do professor, que incluiu a passagem por grandes emissoras de TV do país, além da atuação como fotógrafa freelancer de grandes astros da música pop, como a cantora Madonna. Os alunos ficaram em êxtase, afinal, ter um profissional daquele gabarito dando aulas em Guarulhos era praticamente como ganhar na loteria. Ao se despedir, Goy informou que lecionaria o curso naquele semestre e, caso o Programa Escola da Família continuasse, seu contrato seria renovado por mais uma temporada, o que a princípio soou como música aos ouvidos da novata, afinal, teria a possibilidade de permanecer mais tempo nos estudos e talvez, a partir disso, se tornar profissional.
Àquela altura , Betina estava desempregada, tentando ingressar em uma universidade pública e sua família passando por dificuldades financeiras, o que tornava seu sonho de cursar teatro distante de sua realidade. Aulas gratuitas, mesmo que num colégio público da cidade, sem muita infraestrutura, poderiam ser um começo.
Assim como ela, os demais alunos vivem situações familiares ou financeiras difíceis. Não tive a oportunidade de desenvolver seus talentos sem custo, de fugir de situações dolorosas e abusivas em seus lares, mesmo que por poucas horas aos sábados, e pude agora, acreditar em seus sonhos.
Goy era envolvente, divertido e carismático. Vivia num mundo de glamour que fascinava seus alunos. Em pouco tempo, sua presença quase paternal, se tornou um fio de esperança na vida daqueles jovens da classe média baixa da cidade.
A turma adorava ouvi-lo contar as histórias do tempo em que conheceu sua melhor amiga, a atriz Malu Mader. “Somos inseparáveis. Quando sofri o acidente e fiquei viúvo, há 10 anos, foi ela que segurou a minha barra, me acolheu, me visitou no hospital. Devo tudo a ela”. Eram comuns também as ligações de nomes como Dado Dolabella, com quem o professor dizia ter um caso amoroso. “Ei, Dudu! Você me pega às 21h”.
Isso era totalmente fora do comum na vida de jovens com aquele perfil. Famosos não falam com você por telefone todos os dias como acontecia com Betina e seus colegas desde que ingressaram no curso de teatro. Para eles, aquilo era da marginalidade ao estrelato num golpe de sorte do destino. Significava ser visto, ter um futuro, uma perspectiva em meio ao caos. Quem não quer ser importante?
E Goy percebeu as fragilidades de seus alunos. Sabia que seu corpo macérrimo, seu rosto quase cadavérico e a ausência de muitos dentes chamavam a atenção e despertavam desconfiança. Como alguém com aquela importância não tinha dinheiro para arrumar os dentes¿ Se ele era tão rico, de família nobre, por que morava naquela casa humilde¿ Betina se fez exatamente essas perguntas. Para ela, havia algo diferente naquele olhar, um vazio indescritível, peças faltando no quebra-cabeças, mas a possibilidade de realizar um sonho era, naquele momento, infinitamente maior do que a impressão negativa causada por esses detalhes, por isso Betina decidiu continuar.
Com o tempo, Goy foi sensibilizando a turma. O acidente que desfigurou seu rosto, o luto pela perda de um grande amor e de seu irmão gêmeo, a impossibilidade de trabalhar após as sequelas do acidente, a ruptura com a família espanhola após se assumir gay e tantas outras histórias, estou preenchendo as lacunas despertadas por sua aparência e pelos recorrentes empréstimos financeiros feitos com seus alunos. Goy havia se tornado uma figura importante para aquele grupo e um homem livre de quaisquer suspeitas.
Não demorou muito para que ele se aproximasse também dos familiares de seus alunos. Era bastante comum o professor aparecer de surpresa na casa de alguém para um café da tarde. Pão fresquinho e café eram suas escolhas preferidas. Nada muito elaborado. Ele disse que os anos trabalhando como chef em restaurantes renomados lhe deram certa aversão aos cardápios luxuosos. O simples era mais saboroso, assim como sua opção por viver aquele estilo de vida longe dos holofotes de outrara.
Com admiração, respeito e certa esperança de que homem era aquele anjo enviado para oferecer um futuro melhor à sua filha, dona Chica, mãe de umas de suas alunas preparava bolinhos de chuva e pão caseiro para os encontros, que logo se aproximavam semanais entre ela e o querido e fraterno professor.
As semanas viraram meses e no verão de 2005, o espanhol naturalizado brasileiro, já havia ocupado todos os espaços dentro e fora da sala de aula. Mães foram consultadas como ele, que se habilitavam para ser terapeuta porque teriam cursado 4 semestres de psicologia na Universidade Mackenzie. Tios, tias e irmãos o convidavam para festinhas familiares e até aniversários infantis. Segredos, fragilidades, dores, tudo era compartilhado nesses encontros e o repertório de repertório para construir tramas repletas de mentiras e envolver cada vez mais alunos e familiares. Goy sabia muito de suas vítimas e revelou um pouco de si.
As aulas de teatro seguiam, agora já com um número muito menor de alunos. Dos 10 iniciais sobraram apenas 4. Todas mulheres, com idades entre 10 e 22 anos. Nos bastidores, o professor continuava com suas histórias fantásticas de festas, glamour e amigos famosos. Nelas, ele conhecia todo o mundo, esteve em todos os principais eventos da alta sociedade paulistana e carioca. “Ontem a Malu passou aqui e saímos. Vi o Dado com outro cara, foi devastador. Olha o áudio que ele me mandou”, dizia Goy colocando em alto e bom som a confissão de traição do cantor Dado Dolabella para seus alunos ouvirem.
Numa certa ocasião, as alunas pediram uma foto deles dois juntos, não por desconfiança, mas porque para elas, isso seria o ápice do status social. Dado era o crush de muitas garotas daquela época e ter uma foto dele, em momentos íntimos, seria o atestado de que elas também eram importantes agora. Mas Goy detestava aparecer em fotos. Sua versão cadavérica e desdentada era um gatilho que o fazia chorar por horas na frente da aula. Vê-la nas fotografias era a comprovação do monstro no qual havia se tornado após o acidente. O professor, diretor era um fotógrafo renomado que amava fotografar, mas tinha pavor de seu autorretrato. Sempre com sotaque caricato, ele sai pela tangente quando lhe pede uma selfie, justificando: “só quando eu faço o tratamento prematuro e voltar a ser o Goy de antes. Por enquanto, prefiro registrar e revelar a beleza de vocês. ”
Usando essa justificativa, o professor passou a oferecer livros fotográficos gratuitos ou a preços simbólicos para suas alunas queridas. As fotos eram sensuais e feitas em sua própria casa. O material entregue em CD, levou meses para ficar pronto, sempre depois de uma longa jornada de cobranças por parte das fotografadas.
Para agilizar o trabalho e ganhar mais dinheiro, Goy precisava de infraestrutura básica como computador, celular e linha telefônica. “Lis, seremos famosos ainda, mas enquanto isso não acontece, preciso trabalhar para bancar o grupo e pagar minhas contas. Não preciso de nada para mim, sou nessa por vocês, porque acredito no talento de vocês. Mas quem vai me contratar assim, doente e sem dentes¿ Preciso de ajuda para comprar esse material”, apelava ele chorando.
E foi assim, usando do mais alto grau de manipulação, que Goy convenceu Lis, uma de suas quatro alunas remanescentes, a comprar em seu nome, um computador e uma linha telefônica para ele. O pagamento seria feito mensalmente, em parcelas que jamais foram depositadas na conta de Lis.
Em fevereiro de 2006, as coisas começaram a mudar para Goy Fortea. Àquela altura, sem dar muitas satisfações, ele rompeu com a progressão do Programa Escola da Família de Guarulhos, se mudou para uma pensão na Rua Taguá, no bairro da Liberdade, em São Paulo, e passou a lecionar em parques e praças da região. Recrutando novos alunos, ele convenceu Betina, Lis e Clara a segui-los com ele nessa nova fase da cia de teatro.
Betina acabou de passar no vestibular na USP, Clara já cursava história e Lis aguardava o vestibular para marketing. A rotina das veteranas havia feito novos rumores e por isso, a frequência das aulas já não era mais a mesma. A carga de estudos acadêmicos foi intensa, além disso, a universidade expandiu os horizontes de futuro das aspirantes a atriz, que passaram a construir novas amizades, traçar planos de carreira e Goy deixou de ser o único caminho possível de sucesso na vida delas. Por isso, o teatro ficou em segundo plano, e embora a amizade entre as três e o professor permanecesse, os encontros agora eram espaçados e consistiam muito mais em bate-papos entre amigos do que nas aulas.
Sempre que possível, as alunas vão até a pensão beber vinho e jogar conversa fora. Vez ou outra cruzaram com algum novo aluno ou amigo do multitalentos Goy Fortea.
Naquele mesmo período, Clara começou a procurar um apartamento. Queria morar sozinho, ser independente, estar mais perto da faculdade e do trabalho e desfrutar das festas e eventos que a nova rotina universitária oferece. Goy estava passando por aberturas financeiras e ter alguém com quem dividir o aluguel da pensão seria perfeito. Não demorou muito e Clara se mudou para o quarto dele na pensão. Homossexual declarou, o professor passou a incorporar uma personalidade mais máscula na tentativa de se passar pelo marido de Clara, já que na pensão não era permitido dividir quartos, exceto para casais.
Tereza, a dona da pensão, era uma senhora humilde, expansiva, que gostava de uma prosa. Nordestina, veio para São Paulo tentando uma sorte grande como muitos retirantes, e acabou fixando moradia no bairro da Liberdade. A pensão era simples, mas muito bem localizada. Perto de mercados, metrô e hospitais, contava com uma cozinha comunitária, área nos fundos, quartos maiores, comuns em imóveis mais antigos, e parecia um ambiente familiar. Sem muita dificuldade.
No começo, a praticidade de não ficar horas dentro do transporte público, poder chegar e sair a qualquer momento sem dar satisfações e encher o peito de orgulho por bancar esses pequenos grandes avanços da vida adulta preencheram Clara e desviaram seu olhar de comportamentos estranhos, sumiços e mentiras de Goy.
A vida foi assim por alguns meses, mais precisamente até o verão de 2007. Num sábado ensolarado, Betina e Lisa foram visitar Goy e Clara na pensão. Clara e o professor vieram para comprar pão e frios, que seriam servidos no café da tarde. Betina e Lisa ficaram no quarto.
Ao olharem o rack em que estavam o computador, perceberam uma carteira masculina. Goy havia esquecido seus pertences. Numa fração de segundos, pela primeira vez em anos de convivência, Betina e Lisa se olharam e ex colocaram suas desconfianças em relação às histórias e à identidade do professor. “Lisa, você suspeita da mesma coisa que eu acho muito estranho um diretor renomado, namorado de ator famoso, viver nessas condições. Ainda mais descabida é a história do acidente, a coincidência de perder o irmão gêmeo assassinado e o marido em um acidente trágico, e ambos se chamamem Eduardo. Acho que o Goy é um farsante. ” “Que quebra, Betina! Achei que estava sendo injusta por suspeitar e fiquei com medo de falar sobre isso com vocês, porque talvez não acreditassem e eu julgassem por desconfiar de alguém supostamente tão altruísta, mas eu também acho que tem coisa errada nisso tudo”.
Sem titubear, Betina e Lisa abriram a carteira, verificaram os documentos e perceberam imediatamente que Goy usava um nome falso e era mais velho do que dizia ser. As duas, então, fotografaram o RG e o CPF do professor. Queriam ir além, mas foram estudados pelos passos vindos na direção ao quarto. Fecharam rapidamente a carteira, colocaram-na no mesmo lugar e Goy abriu a porta. Ele havia dado falta da carteira.
Cerca de 40 minutos depois, Clara e Goy voltaram com as compras e o café bateu normalmente. Betina e Lisa, que já tinham conversado sobre suas suspeitas, combinaram manter segredo até que fizeram tentativas para mostrar aos demais alunos e principalmente à Clara, que vivia com ele. Naquele momento, Goy tinha recrutado alguns novos futuros atores para a sua cia teatral e, com alguma frequência, os levava para a pensão.
A partir daquela descoberta , Betina e Lisa vieram atrás de mais informações sobre o falso professor, sem, contudo, romper os laços de amizade. Goy não podia perceber que havia sido desmascarado. Por isso, as visitas a pensão planejadas como estratégia para mantê-lo por perto até terminarem as investigações.
De repente, as aspirantes a atrizes se tornaram detetives. Bateram na Universidade Mackenzie para confirmar se Goy de fato estudado em psicologia lá; ligaram para a Escola de Teatro Macunaíma na tentativa de comprovar a formação em artes cênicas, foram até o Cemitério da Consolação, em São Paulo na busca do túmulo do marido e do irmão do professor, mas SERGIO MESSIAS SANCHEZ ALVES, vulgo GOY FORTEA, nunca havia passado por nenhum desses lugares, sequer como visitante.
No 1 DP de Guarulhos, as ex-alunas foram informadas de que aquele RG havia sido tirado recentemente, o que, segundo um policial, era estranho por se tratar de alguém com quase 40 anos de idade. Além disso, o estado civil do professor gay era casado e não viúvo. E o mais chocante, é que nos registros na delegacia, Goy era casado com uma mulher. Sem prestar queixa e chocadas com tudo o que descobriu, Betina e Lisa voltaram para suas casas e decidiram revelar tudo o que sabiam a Clara.
Se Goy era marido de uma mulher, então o toque “paternal” nos corpos das alunas não era inocente. Os comentários sobre a aparência física das garotas em aula e os selinhos não eram despretensiosos. O vazio daquele olhar, que lá atrás incomodou Betina, escondia na verdade maldade, perversão sexual e estelionato. Clara estava em perigo. Era preciso agir.
Certas de que estavam convivendo com um golpista, as três traçaram um plano para recuperar o computador comprado em nome de Lisa, que posteriormente foi vendido ajudando-a a quitar parte da dívida; e para tirar Clara da pensão. Jeff, um novo aluno de Goy também foi informado da farsa e ajudou as garotas a seguirem com o plano.
Na tarde de 13 de março de 2007, às 16h06, Jeff, Betina e Lisa compareceram ao 93 DP, no bairro do Jaguaré, em São Paulo e registraram um Boletim de Ocorrência contra Goy Fortea por estelionato e falsidade ideológica. De lá, Jeff foi até a pensão e ajudou Clara a retirar suas roupas, livros, objetos pessoais e o computador comprado em nome de Lisa. O automóvel com Jeff e Clara partiu. Minutos depois, ao retornar para casa, Goy Fortea fez a entrega de uma viatura policial em frente à pensão e fugiu.
Tentando descobrir quem o havia denunciado, SERGIO MESSIAS SANCHEZ ALVES sofreu impedindo contato telefônico com os ex-alunos. Em seu último ato, invejo um e-mail de despedida para Betina, em que termina a mensagem com uma ameaça velada: “eu voltarei”.
Ele nunca voltou, mas esta história, que parece terminar por aqui, é na verdade só o começo de uma caçada policial que já dura 20 anos.
Bragança Paulista, Jornal em Pauta – setembro de 2017.
Tem mais de 13 anos e quer fazer um curso de teatro grátis? As inscrições estão abertas! A Secretaria Municipal de Cultura e Turismo está com inscrições abertas para o curso de teatro totalmente gratuito ministradas pelo professor Goy Fortea.
Há uma lacuna temporal entre 2007, quando surgiram as primeiras denúncias, e 2017, data deste anúncio. Quais os crimes cometidos por Goy Fortea neste intervalo de tempo? Não sabemos e talvez, a partir da publicação deste texto, descobriremos seus passos. O que se sabe é que, em setembro de 2017, atraídos por este anúncio publicado em um site de um jornal local, jovens carentes de Bragança Paulista, município que fica a cerca de 2 horas de Guarulhos, procuraram a secretaria de Cultura da cidade para se inscreverem no curso de teatro ministrado por ele, sem jamais imaginarem, que seriam suas próximas vítimas.
Agora, o professor renomado, fotógrafo de Madonna, aparece em uma versão um pouco diferente e mais perversa. Italiano (não mais espanhol), pai de um adolescente chamado Gabriel, que também frequentava as aulas e morava com ele na cidade, viúvo e gay. Sérgio acrescentou alguns personagens às suas histórias fantásticas, mas manteve o mesmo modus operandi. Comovia pais e alunos para aliciar. E o Estado, ali representado pela secretaria de Cultura da cidade, falhou de novo. Dando espaço e autoridade a um professor golpista.
Goy foi aclamado por uma das funcionárias da secretaria de Cultura. Elogios postados por ela nas redes sociais do professor eram bastante frequentes. Sempre que aparecia uma foto dele com a turma em algum ensaio, ela disparava: “Parabéns, amo vocês”, “Lindos, vocês arrasaram”. Sueli era uma mulher em casa há mais de 50 anos, de baixa estatura, cabelos alisados ​​e sempre disposta a ajudar-lo no que precisasse. Assim como aconteceu anos antes em Guarulhos, não houve nenhum tipo de processo seletivo ou comprovação da formação do profissional. Goy tinha, mais uma vez, carta branca para cometer seus crimes.
As aulas aconteciam todas as terças-feiras, das 18h às 21h30, no Centro Cultural Geraldo Pereira. Por lá, um grupo de 30 alunos participou das atividades que consistiam em exercícios de improviso, acrobacias e técnicas de atuação. Durante a preparação para as peças, houve encontros extras para ensaios.
Usando de seu carisma e se escorando na figura paterna, que havia incorporado na época, o professor farsante foi acolhido rapidamente pela comunidade e passou a frequentar a casa de seus alunos. Aparecia para tomar café da tarde, que ele, com sotaque caricato, chamava de chá da realeza. Em alguns finais de semana, vem para os almoços de domingo. Transitava sem obstáculos, afinal, todos estavam encantados e comovidos com a história trágica do pai dedicado, que lutava para sustentar o filho após ter sofrido um grave acidente de moto. Além disso, Goy tinha o respaldo da prefeitura. Quem desconfia de um profissional contratado pelo órgão público?
Em poucos meses a turma diminuiu e, dos 30 alunos matriculados sobraram apenas 10, o que fez com que ele conseguisse estreitar ainda mais os laços. Pouca gente em sala, mais tempo para contar histórias. E Sérgio Messias Sanchez Alves caprichou nas narrativas. Sua vida basicamente é retomada em mortes, perdas, tragédias, infecções e violência, que o fez compensar seus valores e buscar na arte, a cura da alma. Era um ser de luz, espiritualizado. Não tinha o judaísmo seu maior refúgio. Dizia que herdou a fé da família falida vinda da Itália para o Brasil durante uma guerra. Havia perdido o mundo todo, restando apenas o filho, Gabriel.
Os alunos, jovens pertencentes à classe média baixa da cidade interiorana, passaram a buscar alternativas para ajudar o professor. Arrecadavam verba para as peças, que ele embolsava para uso próprio, emprestavam dinheiro, roupas e davam até comida. Eram frequentes as abordagens por whatsapp solicitando socorro aos alunos. “Vacilei, o banco estava fechado e preciso ir trabalhar. Você me empresta 15,00 e eu te devolvo amanhã¿ Passo na sua escola pra pegar o dinheiro”. “Ainda não recebi da secretaria, tem 50,00 para eu comprar o gás¿ Te pago ainda esta semana”. Os valores jamais foram devolvidos.
Fora da sala de aula, Goy trabalhou como cozinheiro em restaurantes da região. Segundo ele, além de ator, modelo e fotógrafo dos famosos, havia feito também curso de chef de cozinha no passado, o que lhe permitia exercer a profissão.
Certa vez, para retribuir a amizade e o carinho de uma das mães das alunas, Goy lhe arrumou um emprego no restaurante Brasileirinho, em que ele já trabalhava. A senhora comparou no horário combinado, executou seus deveres com esmero e aguardou que o professor de sua filha repassasse o dinheiro combinado, mas ela nunca recebia diariamente. “Também sairei de lá, eles são difíceis para pagar. Que vergonha”. Desconcertada e com pena do homem bem-intencionado que ajudou-la, Judite deixou o episódio para trás e melhoria de sua vida.
A verdade é que Goy vivia inventando mentiras para esconder seus golpes e passando muito tempo proporcionando meios de manipular as pessoas para não se complicar. Era preciso astúcia para manter tantos personagens fictícios e continuar convencendo a todos de sua riqueza e honestidade. Uma boa pitada de autoconfiança também foi necessária para arriscar tanto. Sérgio tinha certeza da impunidade e por isso atrapalhou seu roteiro.
Uma sessão de fotos que revelaria a farsa. Vendendo livros fotográficos a preços simbólicos, o professor convenceu suas alunas a pagarem pelo material. Cerca de R$300,00 em dinheiro vivo. Algumas garotas se interessaram e contrataram o serviço. Muitos já foram, inclusive, acompanhados de seus pais à casa do professor ator e fotógrafo. Era lá que as sessões aconteciam.
Goy preparava maquiagem, cabelo, luz e cenários. As deixava à vontade, sempre exaltando a beleza das garotas e fazendo promessas de fama e glamour. Os primeiros cliques eram dados. “Linda, bunita”, assim com você, como ele gostava de dizer. “Ai, olha isso, capa da Vogue! Vou mostrar para alguns colegas, guria, você vai brilhar”.
Empolgadas com os elogios e animadas com o futuro promessa que permaneceram, as alunas, menores de idade, entraram no clima e seguiam à risca as instruções do querido e fraterno professor. Ele era uma referência na área. Se ele mandar, é obrigatório. E Goy entendeu seu poder sobre elas. O fotógrafo, que detesta selfies e fotos de seu rosto cadavérica, passou a produzir sessões sensuais. A partir daquele momento, suas alunas deveriam posar novas ou em trajes íntimos para suas lentes poderosas, a fim de diversificar o material e ter mais chances de serem contratadas por uma grande emissora de TV ou agência de modelo do país.
As fotos levaram meses para serem entregues aos modelos. Goy inventou inúmeras desculpas para o tamanho do atraso. “Meu computador cortez”, “Nossa, estou me dedicando muito, está ficando lindo, um pouco mais de paciência”, “Fiquei doente ontem, mas vou correr com isso”. E enquanto as garotas esperavam seus CDs com as imagens para divulgarem em castings, Fortea colecionava fotos de adolescentes, menores de idade, nuas em seu computador.
Era comum Goy publicar, em suas redes sociais, fotos sensuais de alunas como portfólio para atrair novos clientes. Para as fotografadas, as redes dele eram uma oportunidade, afinal, famosas como Malu Mader poderiam vê-las e até recomendá-las a um diretor de TV. Para os novos clientes que questionavam quanto ao fato de serem fotos em trajes íntimos, ele de pronto dizia: “Imagina! Sou gay, um pai para essas garotas, jamais faria algo de ruim. Além disso, muitas vezes os pais até as acompanham, sou amigo das famílias, pode confiar”.
O que elas não sabiam é que a coleção de fotos da galeria de Goy era bastante volumosa. Dez anos antes, Betina, ex-aluna de Guarulhos, também tirou fotos semelhantes. Certa noite, Goy foi encontrado para acompanhá-lo até uma balada na Vila Olímpia, bairro boêmio de São Paulo. Pediu que levasse suas fotos e fosse com roupas sensuais. “Guria, quero você bem bunita! Vamos arrasar na balada”. Ao chegarem, Goy pediu que Betina o esperasse no início de entrada do local e se fosse um homem alto, forte, do tipo marombado, aparentando ter uns 50 anos. O barulho da música eletrônica, somado ao zumzumzum das pessoas conversando e a distância, a impediam de ouvir a conversa, mas o jovem teve a impressão clara de que falavam dela. O homem a examinava, olhando-a de cima para baixo, como se estivesse analisando o seu corpo. Ela deu, sem jeito, e aguardou. Em minutos poucos Goy voltou e eles foram embora. Betina estranhou, afinal, os dois cruzaram a cidade inteira, de madrugada, para ficarem lá apenas por 30 minutos. O professor justificou a situação dizendo sentir fortes dores que o impediriam de continuar a aventura madrugada a fora.
O que Goy realmente fez com as fotos, não sabemos e levaria ainda alguns meses até que as fotos de duas alunas interromperam sua trajetória criminosa em Bragança Paulista.
Palavras e gestos, se não forem filmados, não forem propostas questões jurídicas, mas imagens sim e elas serão usadas contra o professor. Ironicamente, as lentes que enganavam suas vítimas, revelariam seu rosto sombrio.
Saúde! Dizia Goy levantando seu copo, cheio de vinho barato, que ele oferece aos alunos durante as aulas extras em sua casa. “Aqui vocês são livres. Se quiserem, podem se beijar, se pegar. Não sou careta”, dizia o professor, que em seguida bolava um baseado. Com o pretexto de ensaiar para as peças da cia teatral, Fortea reúne seus alunos, menores de idade, e promove com frequência festas regadas a bebidas e drogas.
Durante os encontros, o professor costumava dar selinhos nos alunos e elogiar seus corpos e aparência física. “Se eu não fosse gay, investiria em você. Tá gostosa demais!” “Que peitão, os caras devem se fartar neles, hein”. A prática se repetiu há mais de uma década e, embora causasse estranhamento nas primeiras alunas do que temos notícia, o fato de Goy ser gay e fraterno, somado ao contexto social daquela época, camuflou a violência presente em seus atos.
Mas em 2018, no Brasil pós Mee Too, movimento contra o assédio e agressão sexual, que ganhou projeção mundial incentivando mulheres a romperem o silêncio denunciando este tipo de crime, as ações libidinosas de Goy contra suas alunas não passariam em branco.
Durante uma confraternização do teatro, o professor ofereceu corote, bebida à base de vodca e com teor alcóolico específico, aos alunos, inclusive aos menores de idade. Todos curtiram a festa por algum tempo até que uma das alunas começou a passar mal. Aproveitando-se do fato de a aluna estar totalmente embriagada em razão do corote, que ele mesmo lhe foi fornecido, Goy a assediou, apalpando seu bumbum e alisando seus cabelos. Aluna percebeu a violência sofrida, mas não conseguiu reagir.
Após o incidente, os alunos do curso decidiram revelar aos seus pais os abusos sofridos durante as aulas de teatro ministradas por Goy Fortea, no Centro Cultural Geraldo Pereira.
Em setembro de 2018, alunos, pais e membros daquela comunidade procuraram a DELEGACIA DE DEFESA DA MULHER DE BRAGANÇA PAULISTA e prestaram queixa contra o falso professor. Naquele momento, o caso já tinha sido amplamente divulgado por um suposto detetive particular, que apresentou áudios, vídeos e fotos das vítimas, sem autorização, durante uma seção na Câmara Municipal da cidade. O episódio o colocou na condição de denunciada, mas posteriormente ele foi absolvido.
Goy foi afastado de suas atividades à frente do curso. Em seu depoimento, ele negou todas as acusações, alegando ser vítima de um complô das alunas. Segundo o professor, uma das garotas, que foi namorada de seu filho, estaria magoada após o término do relacionamento, o que teria motivado um adolescente a inventar tais calúnias contra ele. Sérgio apresentou ainda, duas ex-alunas como testemunhas de defesa.
Em dezembro de 2019, o Ministério Público do Estado de São Paulo denunciou pelos artigos 215 (Ter conjunção carnal com mulher, mediante fraude), 216-A (Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de hierárquico superior) e 71, proibindo-o de exercer a atividade de professor.
Mais uma vez SÉRGIO MESSIAS SANCHEZ ALVES deixou traumas, destruiu sonhos e deu golpes financeiros. Mais uma vez o Estado permitiu. E se você, leitor, acha que a história acaba aqui, está enganado. A caçada contra Goy Fortea está apenas começando.
“Culinária autoral, é com isso que funciona. Sou o chef internacional Goy Sanchez, ao seu dispor! ”
Fugindo da polícia e de seu passado, Sérgio se mudou para a cidade de Toledo, em Minas Gerais, a aproximadamente 40 km de Bragança Paulista, interior de São Paulo. Adotando o nome de Goy Sanchez, deixou a identidade do professor de teatro de lado e assumiu o papel de chef de cozinha renomado, formado em cursos no exterior. Já não havia amigos famosos, turnês com a Madonna, um filho adolescente. Aquela figura fraterna e artisticamente talentosa foi enterrada para dar espaço ao mestre dos sabores.
E foi assim que, em 2019, encarnando esta nova versão de si mesmo, ele convenceu o dono de um restaurante em Extrema, cidade vizinha a Toledo, a alugando o local para ele e passou a administrá-lo. Luiz, o proprietário, não desconfiou de Sérgio no primeiro momento. “Ele disse ter trabalho como chef no Chile e sei lá onde mais, e eu acredito”.
No começo tudo caminhava bem. Os alugueres eram pagos na data, o local estava conservado e vivia cheio de clientes. O negócio parecia prosperar. Mas, o que deveria ser um problema financeiro para o homem simples do interior, que entregou seu rancho para o chef Sérgio comandar, logo se transformou em pesadelo.
Em poucos meses, Goy deixou de pagar o aluguel do espaço, as reclamações pela queda na qualidade dos serviços e da comida após a mudança de gestão cresceram a passos largos, os jovens eram vistos consumindo drogas dentro da cozinha do estabelecimento e os clientes foram desaparecendo. “Em menos de 6 meses percebi que havia feito uma grande burrada alugando para ele. Aquela cara não entendia nada de cozinha, jamais conseguiria administrar um restaurante. Sem contar que ele se envolvia com menores, levava uns moleques lá para fumar maconha, era tudo muito estranho. ”
A locação foi desfeita e Goy montou um novo restaurante em Toledo, levando toda a equipe do rancho para trabalhar com ele com a promessa de melhores novidades. Luiz, o dono do Extremo Sabor ficou sem dinheiro, sem equipe e desnorteado, mas criou outro cardápio, treinou novos funcionários e conseguiu se reerguer. Já em Toledo, o restaurante de Goy Sanchez chegou a ser inaugurado, mas fechou as portas meses depois.
Eu sou a cor do tempero e o amor do paladar
Em 2020, sem dinheiro, desmoralizado e se escondendo da justiça, SÉRGIO MESSIAS SANCHEZ ALVEZ mudou de endereço mais uma vez. Seu paradeiro agora é o Estado do Rio de Janeiro. Contando as mesmas histórias tristes e usando variações de seu nome, Goy criou perfis em sites de gastronomia oferecendo trabalhos como chef particular.
No Linkedin, publicou uma biografia digna de filmes hollywoodianos. Pai solo, sobrevivente, com um filho adolescente emocionalmente abalado para cuidar. O típico homem dedicado e honesto que precisa de ajuda. Seu currículo na plataforma é bastante extenso, com passagens por restaurantes e cursos de gastronomia no México, Peru e Chile, além de aulas com mentores da área de hotelaria. Olhando assim, é fácil se convencer de que Goy é o funcionário perfeito para o seu negócio.
E ele não parou por aí. Novos canais em redes sociais foram criados. Há fotos com supostas clientes e belos pratos, que segundo as postagens, foram executadas por ele. O farsante que passou alguns anos off-line, deu as caras mais uma vez, mas suas publicações pararam em 28/04/2022.
Durante todos esses anos, de 2007, quando os alunos de Guarulhos denunciaram, até 2024, Goy agrediu fugindo, mentindo e desafiando a polícia. Mudou de telefone e endereços raros de vezes, abriu e faliu comércios, fez muitas novas vítimas e continuou sua trajetória de golpes. O processo de assédio sexual tramitava em segredo de justiça e a polícia tentava, de tempos em tempos encontrá-lo. É sabido que SÉRGIO MESSIAS SANCHEZ ALVEZ permanece no Rio de Janeiro. Há postagens que indicam que o suposto filho dele também reside naquela região. Na última atualização de que se tem notícias, datada de 20/06/2024, uma nova carta precatória criminal foi expedida pela justiça, desta vez, destinando as buscas a endereços em Nova Friburgo, RJ. Goy mais uma vez não foi encontrado.
Mas afinal quem é Goy Fortea¿
Não está claro de onde exatamente Goy veio e como se mantem financeiramente- Apenas os golpes são suficientes¿ Ele disse às pessoas que era espanhol, às vezes, italiano, de família nobre, mas seu sotaque caricato deixava claro que ele não era nada disso. Goy cometia erros básicos de português e não falava aquilo que seria a sua língua materna. Aliás, no seu currículo, encontrado por Betina e Lisa, em 2007, havia apenas: espanhol básico.
Causou também certa estranha a ocorrência de tantas tragédias na vida de uma única pessoa. Histórias tristes existem, mas aquela enxurrada de mortes e acidentes desafiava a lógica humana e as teorias estatísticas. Qual a probabilidade de alguém ter um irmão gêmeo e um marido chamado Eduardo, ambos morrerem de forma trágica e no mesmo ano¿ Com acusações de assédio sexual pesando contra ele e um suposto filho biológico torna-se duvidosa também a versão homossexual do professor de teatro .
O fato é que ainda não sabemos exatamente quem é Goy Fortea. Mas, depois de quase 20 anos de investigação jornalística e ainda que me sobrem mais perguntas do que respostas, de uma coisa tenho certeza: Goy não vai parar. Enquanto estiver solto, continue fazendo novas vítimas, deixando traumas e destruindo sonhos. Resta saber se o Estado seguirá validando seus passos.
São Paulo, julho de 2024
Natália do Vale (Betina)
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Posted May 30, 2025

Goy Fortea's fraudulent theater course exposed, leading to legal action.

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Timeline

Sep 30, 2004 - Mar 12, 2007